O IPCA acumulado em 12 meses permanece em torno de 5,2%, distante da meta de 3% perseguida pelo Banco Central. Enquanto bens industrializados perdem tração, serviços e alimentação fora de casa mantêm pressão sobre o índice — e a renda real das famílias brasileiras continua a encolher.
A composição da inflação atual
A desagregação do IPCA revela um quadro preocupante. Itens ligados ao setor de serviços — educação, saúde, transporte por aplicativo, restaurantes — apresentam alta acumulada superior à média geral do índice. Isso reflete a inércia inflacionária típica de economias com mercado de trabalho apertado em determinados segmentos e repasse de custos administrativos.
Alimentos fora de casa, que incluem refeições em restaurantes e lanches, também pesam no bolso do consumidor. A cesta de produtos industrializados, por outro lado, mostra desaceleração — em parte por efeito de base e em parte por menor demanda. Essa divergência entre grupos de preços dificulta o trabalho do Banco Central, que precisa combater inflação de serviços com instrumentos que afetam toda a economia.
Renda real em queda
Quando a inflação supera o crescimento dos salários nominais, a renda real — o que o salário efetivamente compra — diminui. Dados da PNAD Contínua indicam que, apesar de redução recente da taxa de desemprego, a qualidade dos postos de trabalho criados e o poder de compra dos rendimentos não acompanharam a melhora quantitativa do mercado de trabalho.
Trabalhadores informais e autônomos, que representam parcela significativa da força de trabalho brasileira, são particularmente vulneráveis. Sem contratos formais e sem reajustes automáticos, veem seus ganhos corroídos mês a mês. A inflação de alimentos e serviços essenciais atinge essa população de forma desproporcional, já que uma fração maior da renda é destinada ao consumo básico.
Inflação persistente é, em essência, um mecanismo de transferência de renda dos mais pobres para os que detêm ativos indexados ou capacidade de repasse de preços.
Desigualdade e inflação
Estudos do IBRE/FGV e de universidades públicas demonstram que a inflação percebida pelos mais pobres costuma superar o IPCA oficial. Isso ocorre porque o índice é uma média ponderada e famílias de baixa renda gastam proporção maior com itens que estão subindo acima da média — alimentos, transporte público, energia elétrica.
Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, oferecem alguma proteção, mas reajustes nem sempre acompanham a inflação real vivenciada pelos beneficiários. O resultado é ampliação da desigualdade de consumo, mesmo em períodos em que indicadores agregados de emprego mostram melhora.
Política monetária e seus limites
O Banco Central reage à inflação persistente com juros elevados, como detalhamos em nossa análise sobre a Selic. Porém, a política monetária tem efeito limitado sobre inflação de serviços e custos administrativos, que respondem mais a dinâmicas de oferta e demanda específicas do que à taxa básica de juros.
Choques de oferta — como variações cambiais que encarecem insumos importados — também pressionam preços de forma que o BC não controla diretamente. A combinação de juros altos para combater inflação com perda de renda real cria um cenário de estagflação moderada: crescimento fraco com preços ainda elevados.
O que esperar nos próximos meses
Projeções do boletim Focus indicam IPCA de cerca de 4,5% para 2026, ainda acima do centro da meta. A convergência dependerá de desaceleração da economia — o que, paradoxalmente, agrava o quadro para trabalhadores — e de ausência de novos choques de oferta.
Para o consumidor de baixa e média renda, o horizonte não é animador. Enquanto a inflação de serviços mantiver inércia e os salários não recuperarem poder de compra, a sensação de empobrecimento relativo tende a persistir — independentemente do que digam os comunicados oficiais sobre retomada econômica.