A dívida bruta do governo geral ultrapassa R$ 7,8 trilhões, equivalente a mais de 78% do PIB. O déficit nominal persistente e a rigidez das despesas obrigatórias criam um ciclo em que o Estado precisa emitir títulos cada vez mais caros para rolar a dívida — e o contribuinte paga a conta.

Os números que importam

O Relatório Resumido da Execução Orçamentária do primeiro quadrimestre de 2026 mostra resultado primário negativo acumulado, com receitas abaixo do projetado e despesas em linha com o previsto — o que, na prática, significa que o ajuste fiscal prometido não se materializou. O resultado nominal, que inclui pagamentos de juros da dívida, permanece profundamente deficitário.

A dívida bruta em relação ao PIB voltou a subir após breve estabilização. Analistas do mercado financeiro e de instituições multilaterais alertam que, sem mudança de trajetória, o indicador pode ultrapassar 80% do PIB até o final do biênio. Para um país emergente com histórico de inflação e volatilidade cambial, esse patamar é considerado zona de risco elevado.

Rigidez orçamentária e despesas obrigatórias

Mais de 90% das despesas federais são obrigatórias — vinculadas por lei a benefícios previdenciários, salários, transferências constitucionais e outras rubricas que o Executivo não pode cortar discricionariamente. Isso significa que o governo tem margem estreita para ajustar gastos sem reformas legislativas profundas.

Investimentos públicos, que deveriam impulsionar produtividade e infraestrutura, são sistematicamente sacrificados em favor de despesas correntes. O PAC e programas de obras públicas sofrem com subexecução orçamentária, enquanto a folha de pagamento e os benefícios sociais consomem parcela crescente do orçamento.

Um orçamento onde nove em cada dez reais estão engessados não é um instrumento de política econômica — é um mecanismo de inércia fiscal.

O custo de financiar a dívida

Com a Selic elevada, o custo de rolagem da dívida pública aumenta significativamente. Títulos prefixados e indexados à taxa básica exigem remuneração maior dos investidores, que exigem prêmio de risco diante da deterioração fiscal. O Tesouro Nacional precisa ofertar taxas atrativas para colocar papéis no mercado — e essas taxas são pagas, em última instância, com recursos públicos.

A interação entre política fiscal expansionista e monetária contracionista, analisada em nosso texto sobre juros e crédito, agrava o problema. Quanto mais o governo gasta além do que arrecada, mais o Banco Central precisa manter juros altos para conter pressões inflacionárias — e mais caro fica financiar a dívida. É um ciclo que penaliza tanto o setor produtivo quanto as contas públicas.

Riscos de médio prazo

Cenários adversos incluem downgrade adicional das agências de classificação de risco, que elevaria o prêmio exigido por investidores estrangeiros; pressão cambial em contexto de aversão a risco global; e redução do espaço fiscal para responder a crises — como desastres naturais ou choques externos — sem agravar ainda mais a trajetória da dívida.

A inflação persistente, tema de nossa reportagem sobre renda real, também afeta as contas públicas. Despesas indexadas e reajustes salariais pressionam o gasto, enquanto a arrecadação não acompanha na mesma proporção. O resultado é deterioração do resultado primário mesmo sem expansão discricionária de programas.

Alternativas e suas limitações

Receitas extraordinárias — como dividendos de estatais ou privatizações — oferecem alívio pontual, mas não resolvem o problema estrutural. Reformas tributária e administrativa, em tramitação ou prometidas, dependem de articulação política que historicamente se mostrou difícil no Congresso Nacional.

O arcabouço fiscal aprovado em 2023 estabeleceu limites para o crescimento das despesas, mas mecanismos de exceção e interpretações flexíveis enfraqueceram sua credibilidade. O mercado reage com ceticismo a novas promessas de ajuste sem evidências concretas de cumprimento.

Conclusão

O relógio fiscal não para. Cada mês de déficit nominal eleva a dívida e o custo de financiá-la. Enquanto reformas estruturais permanecerem no campo das intenções e a rigidez orçamentária não for enfrentada, o Brasil carregará um passivo fiscal que limita crescimento, eleva juros e reduz a capacidade de investimento público e privado. É um cenário sombrio — e é o que os dados mostram.